Após ser símbolo de protestos, Praça Tahrir reflete volta dos militares ao poder
A praça Tahir está mais verde. O
empoeirado endereço no coração do Cairo, epicentro dos protestos que
transformaram o Egito, ganhou um novo gramado. Mas o horizonte não é de
esperança.
Após a derrocada do longo regime do
ex-presidente Hosni Mubarak, da inédita ascensão da Irmandade Muçulmana e
do breve governo de Mohamed Morsi - com o contestado retorno do
Exército ao poder na sequência - o Egito se mostra cansado. A revolução
que derrubou Mubarak e desencadeou as mudanças políticas completa três
anos neste sábado.
E a praça Tahir continua a ser o palco onde se desenrola boa parte da história recente do Egito.
As faixas de protesto e os manifestantes que em
2011 pareciam anunciar o advento de um novo Egito voltaram a ser
proibidos. Protestar, aliás, é praticamente proibido no país, novamente
sob o forte poderio militar.
Muita coisa mudou no Egito. Apenas o clima de
confrontos permanece. Há sete meses, Mohammed Morsi, da Irmandade
Muçulmana, foi deposto pelas Forças Armadas um ano após assumir como
primeiro presidente democraticamente eleito.
O Exército voltou a ditar os rumos da política e
iniciou uma onda de repressão vista como sem precedentes: a liderança
da Irmandade e milhares de partidários foram presos, e o grupo foi
classificado como organização terrorista.
O cerco chegou a renomados jovens e ativistas,
inclusive os organizadores dos atos que forçaram a queda de Mubarak –
mais um exemplo da atual intolerância à oposição e críticas, no que
analistas veem como o retorno do "Estado policial".
Clima acirrado
"Traidores": é assim que esses ativistas
passaram a ser chamados nos meses seguintes à revolução, em meio ao caos
e violência que pareciam não ter fim. O clima acirrado piorou, com
discursos inflamados nas ruas e na TV e o apoio maciço de egípcios às
Forças Armadas, que parecem ter recebido carta branca no que militares e
a imprensa pró-Exército chamam de "luta contra o terrorismo".
"A repressão (agora) vai além da Irmandade... Há
coisas que estamos vendo hoje que não víamos antes. O nível de
detenções não se compara com o que vimos nas últimas décadas sob
Mubarak", disse um ativista que acompanha os movimentos políticos, e que
conversou com a BBC Brasil sob condição de anonimato por questões de
segurança.
Correligionários da Irmandade Muçulmana temem por repressão com retorno de militares ao governo
O atual cenário no Egito resume-se à batalha
entre setores pró-Exército e os partidários da Irmandade. No meio do
conflito, esquálidos, grupos seculares, liberais e os chamados
revolucionários tentam se fazer ouvir.
Para grande parte dos jovens que deram o tom da
primavera egípcia o sentimento é de apatia e frustração com o atual
processo político. Mas eles não perderam a esperança em um futuro menos
turbulento, conforme as histórias ouvidas pela BBC Brasil.
"Voltaremos às ruas"
Na última semana, filas se formaram em salas de
votação no Cairo durante o referendo sobre a nova Constituição. A
maioria eram eleitores idosos. Os jovens se mantiveram distantes.
Enquanto caminha pela Tahrir, o médico Fareed,
35 anos, se diz cansado. Ele exibe o local onde ficou acampado durante a
revolução e diz ter boicotado o referendo. "Não votei porque ninguém
que se opôs pode fazer campanha", diz.
"Estou desapontado. Todos nós estamos. Depois da
revolução, nós éramos os heróis. Agora, somos causadores de confusão.
Tudo de ruim no Egito é culpa nossa", diz. Para proteger a identidade
dele e dos outros entrevistados, os nomes aqui expostos foram alterados.
A "confusão" citada por ele é um dos fatores que
fizeram do general Abdel Fattah al-Sisi o novo herói do Egito. Cartazes
com o rosto do chefe do Exército são vistos por toda a parte, e muitos o
têm como único capaz de tirar o país da crise.
Fareed parece ter medo de criticar Sisi. Sentado
em um café do centro do Cairo, ele olha ao redor e põe a mão sobre a
boca quando cita o nome do general. "Estamos todos desapontados com esse
apoio a ele", diz. "Mas as pessoas vão voltar às ruas novamente. Nós
não temos mais medo".
Pão e água
Ao contrário de Fareed, o universitário Khaled,
de 24 anos, ainda exibia a tinta rosa no dedo da sua participação no
referendo. "Estou apoiando o Exército porque a Irmandade iria destruir o
país. Mas não estou mais interessado em política. A maioria das pessoas
só quer saber do dia-a-dia", diz. "Elas só querem o pão e água".
Em julho de 2013, militares depuseram primeiro presidente democraticamente eleito do Egito
A opinião baseia-se num sentimento de cansaço
que parece ser consenso, especialmente entre os mais pobres: "As coisas
não melhoraram desde a revolução, e os protestos só atrapalham". É
debruçado nesse apoio que o Exército continua suas ações no Egito.
"Se Sisi decidir ser mais um Mubarak, as pessoas
vão protestar. Se tudo voltar como antes, haverá mais revolta. Jovens
não estão com medo, porque é a nossa vida que está em jogo", diz Khaled.
Foi assim contra Mubarak e seu regime.
Novamente, contra os militares que assumiram em 2011 até a conturbada
eleição de Morsi, em 2012. E, outra vez, no ano passado, para
derrubá-lo. Em todos os casos, jovens formavam grande parte dos
movimentos – e centenas deles morreram em confrontos.
O estudante Christian, de 21 anos, também não
quer a Irmandade de volta. Tampouco o Exército. Um dos líderes do
movimento jovem dos cristãos ortodoxos coptas, exibe no rosto ferimentos
da violência. Preso duas vezes "por ser revolucionário", diz,
participou do protesto dos cristãos que pediam segurança, em 2011. Na
ocasião, veículos militares atropelaram os manifestantes, matando 24.
"Não estou apoiando ninguém", diz. "Estou frustrado... Mas enquanto houver juventude, haverá revolução".
Ingênuos demais
Revolucionários também são responsabilizados
pelo caos atual: não conseguiram levar para a política os ideais
defendidos nas ruas, num comportamento visto por observadores como
demasiadamente ingênuo.
"Os ativistas nunca tentaram formar seu próprio
partido... (É) devido ao fato de que (eles) não têm qualquer ideologia
clara, muito menos uma plataforma política", escreveu o analista Eric
Trager, do Washington Institute, em artigo para a revista
New Republic.
Entre um trago e outro de narguilé, tradicional
fumo árabe, Fareed reconhece o fracasso de levar adiante os sonhos das
praças: "Não somos unidos".
Esse coro parece tomar fôlego. "Chegou a hora
destes jovens muito patriotas e bem intencionados levarem este ativismo a
outro patamar. Ao invés de somente ‘irem às ruas’, eles deveriam
estabelecer partidos políticos", escreveu a professora Maha Ghalwash, da
Universidade Britânica no Egito, em texto no site do jornal semioficial
Ahram.
Christian também sugere um "fracasso" na
revolução. "Nossas exigências, nosso sangue, os mártires. Não há
resposta para nada disso".
Sinal de que as flores e o gramado na Tahrir, por enquanto, são mudanças apenas estéticas.